quinta-feira, 23 de abril de 2020

Adélia Prado


Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
'coitado, até essa hora no serviço pesado'.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água
                                                                             [quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

domingo, 21 de agosto de 2016

HAICAI


VIDA

A vida é assim

certos dias

tem cheiro de jasmim.

(Sônia B.)

 

FIM

A vida é uma agrura

Nem bem começa

Acaba como uma fagulha.

(Sônia B.)

 

CRIANÇA

Nossa! Ainda ontem

com pureza eu brincava.

E até cantava!

(Sônia B.)

 

JOVEM

Pensar ou fazer

não é uma dúvida.

Faço sem pensar.

(Sônia B.)

 

ADULTO

Pensar ou fazer

é sempre essa dúvida.

Penso antes de fazer.

(Sônia B.)

 
VELHO

Pensar ou fazer

não sei se é dúvida.

Esqueci o que pensava.

(Sônia B.)

 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

sábado, 31 de outubro de 2015

CITAÇÃO DO LIVRO "A TEORIA DE TUDO"

"...Se a crença em Deus fosse automaticamente decretada pelo Criador, a raça humana seria apenas uma bando de autômatos sem nenhuma evolução do pensamento, nem motivação para a descoberta. O mal, raciocinei, muitas vezes se convertia, mesmo que distante e vagamente, em ganância e egoísmo humanos - instintos de animais predadores ditados pela natureza para a sobrevivência em um distante passado evolutivo, muito antes do desenvolvimento da inteligência mais refinada e da aurora da consciência. O egoísmo, reação instintiva, a raiz do mal, está fora do alcance de Deus, precisamente porque o livre-arbítrio impede Sua intervenção. Deus não poderia evitar o sofrimento, mas aliviar seus efeitos, restaurando a esperança, a paz e a harmonia."(A teoria de tudo: a extraordinária história de Jane e Stephen Hawking. São Paulo: Única Editora, 2014. 6ª tiragem. pág.358)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Poesia africana


Poesia Africana de Língua Portuguesa

 As poesias a seguir foram retiradas da obra:
Poesia africana de língua portuguesa: (antologia) / Maria Alexandre Dáskalos, Lívia Apa e Arlindo Babeitos – Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003.

Na introdução, o Sr. Alberto da Costa e Silva esclarece que ao coeditar a antologia, a “Academia Brasileira de Letras quis aproximar os brasileiros da literatura que se produz nos países africanos de língua oficial portuguesa.” E, entre outras coisas, nos expõe que os poetas publicados na antologia viveram:

“a comum experiência do império e quase todos puseram suas vontades na luta contra o colonialismo. Não se estranhe, por isso, que o idioma que foi de opressão e mando seja usado, em alguns deles, com remorso, mágoa e, aqui e ali, rancor ou amargura. Mas é em português que expressam o que sentem – e o que sentem com a intensidade de poetas.”

Para conhecer, pelo prazer da leitura e fruição, a seguir, alguns poemas de autores angolanos em língua portuguesa.

 Noites de luar no morro da Maianga
 Noites de luar no morro da Maianga.
Anda no ar uma canção de roda:
“Banana podre não tem fortuna.
Fru-tá-tá, fru-tá-tá...”
Moças namorando nos quintais de madeira
Velhas falando conversas antigas
Sentadas na esteira
Homens embebedando-se nas tabernas
E os emigrados das ilhas...
– Os emigrados das ilhas
Com o sal do mar nos cabelos

Os emigrados das ilhas
Que falam de bruxedos e sereias


 E tocam violão
E puxam faca nas brigas...


Ó ingenuidade das canções infantis
Ó namoro de moças sem cuidado
Ó histórias de velhas
Ó mistérios dos homens

– Vida!:
 
Proletários esquecendo-se nas tascas
Emigrantes que puxam faca nas brigas
E os sons do violão
E os cânticos da Missão
Os homens
Os homens
As tragédias dos homens!
    (Mário António)
 

Monangamba
 Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado
 
Negro da cor do contratado!
 Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
 
Quem se levanta cedo? Quem vai à Tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipoia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém

fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
“porrada se refilares”?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
– Quem?

 Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
 
Quem faz o branco prosperar,
Ter barriga grande – ter dinheiro?
– Quem?

 E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:


  “Monangambééé...”
 Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber marufo, marufo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
 – “Monangambééé...”
(António Jacinto)

 
Uma quadra
Que dos céus as estrelas desçam esculpidas em
mármore
E se abatam em mim na dureza pétrea e existente;
E do chão abafado e maldito onde não desponta
árvore
Crescerá num volume duro meu canto humano e
quente.
(António Jacinto)

 
Poema
Os gritos perderam-se sem encontrar eco.
Os punhos cerrados e os ódios calados
dividiram os Homens,
que se não reconheceram mais...
 
Mas as lágrimas cavaram sulcos fundos
nos olhos vazios de esperança,
e os sulcos não se apagaram...
(Alda Lara)

 Testamento
 À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...
 
E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,

o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
 
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.
 
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...


Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
 
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...
                    
                       (Alda Lara)
 
Sou um mistério


Sou um mistério.
Vivo as mil mortes
que todos os dias
morro
fatalmente.
 
Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.
 
Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos espero.
 
 
Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.


Dia
dum eu-realidade.
(Agostinho Neto)