Poesia Africana de Língua
Portuguesa
Na introdução, o Sr. Alberto
da Costa e Silva esclarece que ao coeditar a antologia, a “Academia Brasileira de Letras quis aproximar os brasileiros da
literatura que se produz nos países africanos de língua oficial portuguesa.”
E, entre outras coisas, nos expõe que os poetas publicados na antologia
viveram:
“a comum experiência do império e quase
todos puseram suas vontades na luta contra o colonialismo. Não se estranhe, por
isso, que o idioma que foi de opressão e mando seja usado, em alguns deles, com
remorso, mágoa e, aqui e ali, rancor ou amargura. Mas é em português que
expressam o que sentem – e o que sentem com a intensidade de poetas.”
Para conhecer, pelo prazer
da leitura e fruição, a seguir, alguns poemas de autores angolanos em língua
portuguesa.
Anda no ar uma canção de roda:
“Banana podre não tem fortuna.
Fru-tá-tá, fru-tá-tá...”
Moças namorando nos quintais de madeira
Velhas falando conversas antigas
Sentadas na esteira
Homens embebedando-se nas tabernas
E os emigrados das ilhas...
– Os emigrados das ilhas
Com o sal do mar nos cabelos
Os emigrados das ilhas
Que falam de bruxedos e sereias
E puxam faca nas brigas...
Ó ingenuidade das canções infantis
Ó namoro de moças sem cuidado
Ó histórias de velhas
Ó mistérios dos homens
– Vida!:
Proletários esquecendo-se nas tascas
Emigrantes que puxam faca nas brigas
E os sons do violão
E os cânticos da Missão
Os homens
Os homens
As tragédias dos homens!
(Mário António)
Monangamba
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem traz pela estrada longa
a tipoia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
“porrada se refilares”?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
– Quem?
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Ter barriga grande – ter dinheiro?
– Quem?
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
Deixem-me beber marufo, marufo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
(António Jacinto)
Uma quadra
Que dos céus as estrelas desçam esculpidas em
mármore
E se abatam em mim na dureza pétrea e existente;
E do chão abafado e maldito onde não desponta
árvore
Crescerá num volume duro meu canto humano e
quente.
(António Jacinto)
Poema
Os gritos perderam-se
sem encontrar eco.
Os punhos cerrados e
os ódios calados
dividiram os Homens,
que se não
reconheceram mais...
Mas as lágrimas
cavaram sulcos fundos
nos olhos vazios de
esperança,
e os sulcos não se
apagaram...
(Alda Lara)
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...
(Alda Lara)
Sou um mistério
Sou um mistério.
Vivo as mil mortes
que todos os dias
morro
fatalmente.
Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos
pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.
Perto e longe
continuam
massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos
espero.
Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.
dum eu-realidade.
(Agostinho Neto)



