terça-feira, 25 de junho de 2013

Poesia africana


Poesia Africana de Língua Portuguesa

 As poesias a seguir foram retiradas da obra:
Poesia africana de língua portuguesa: (antologia) / Maria Alexandre Dáskalos, Lívia Apa e Arlindo Babeitos – Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003.

Na introdução, o Sr. Alberto da Costa e Silva esclarece que ao coeditar a antologia, a “Academia Brasileira de Letras quis aproximar os brasileiros da literatura que se produz nos países africanos de língua oficial portuguesa.” E, entre outras coisas, nos expõe que os poetas publicados na antologia viveram:

“a comum experiência do império e quase todos puseram suas vontades na luta contra o colonialismo. Não se estranhe, por isso, que o idioma que foi de opressão e mando seja usado, em alguns deles, com remorso, mágoa e, aqui e ali, rancor ou amargura. Mas é em português que expressam o que sentem – e o que sentem com a intensidade de poetas.”

Para conhecer, pelo prazer da leitura e fruição, a seguir, alguns poemas de autores angolanos em língua portuguesa.

 Noites de luar no morro da Maianga
 Noites de luar no morro da Maianga.
Anda no ar uma canção de roda:
“Banana podre não tem fortuna.
Fru-tá-tá, fru-tá-tá...”
Moças namorando nos quintais de madeira
Velhas falando conversas antigas
Sentadas na esteira
Homens embebedando-se nas tabernas
E os emigrados das ilhas...
– Os emigrados das ilhas
Com o sal do mar nos cabelos

Os emigrados das ilhas
Que falam de bruxedos e sereias


 E tocam violão
E puxam faca nas brigas...


Ó ingenuidade das canções infantis
Ó namoro de moças sem cuidado
Ó histórias de velhas
Ó mistérios dos homens

– Vida!:
 
Proletários esquecendo-se nas tascas
Emigrantes que puxam faca nas brigas
E os sons do violão
E os cânticos da Missão
Os homens
Os homens
As tragédias dos homens!
    (Mário António)
 

Monangamba
 Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado
 
Negro da cor do contratado!
 Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
 
Quem se levanta cedo? Quem vai à Tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipoia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém

fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
“porrada se refilares”?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
– Quem?

 Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
 
Quem faz o branco prosperar,
Ter barriga grande – ter dinheiro?
– Quem?

 E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:


  “Monangambééé...”
 Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber marufo, marufo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
 – “Monangambééé...”
(António Jacinto)

 
Uma quadra
Que dos céus as estrelas desçam esculpidas em
mármore
E se abatam em mim na dureza pétrea e existente;
E do chão abafado e maldito onde não desponta
árvore
Crescerá num volume duro meu canto humano e
quente.
(António Jacinto)

 
Poema
Os gritos perderam-se sem encontrar eco.
Os punhos cerrados e os ódios calados
dividiram os Homens,
que se não reconheceram mais...
 
Mas as lágrimas cavaram sulcos fundos
nos olhos vazios de esperança,
e os sulcos não se apagaram...
(Alda Lara)

 Testamento
 À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...
 
E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,

o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
 
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.
 
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...


Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
 
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...
                    
                       (Alda Lara)
 
Sou um mistério


Sou um mistério.
Vivo as mil mortes
que todos os dias
morro
fatalmente.
 
Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.
 
Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos espero.
 
 
Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.


Dia
dum eu-realidade.
(Agostinho Neto)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Poemas de Cecília Meireles

CANÇÃO
 
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
 
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabaertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.
 
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
 
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.



EPIGRAMA Nº 5
 
Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.
 
Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.
 
Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato.
 
E a folha é um pequeno deserto
para a imensidão do ato.



CANTAR
 
Cantar de beira de rio:
água que bate na pedra,
pedra que não dá resposta.
 
Noite que vem por acaso,
trazendo nos lábios negros
o sonho de que se gosta.
 
Pensamento do caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas não vem.
 
Passam luas - muito longe,
estrelas - muito impossíveis,
nuvens sem nada, também.

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.
 
A água subiu pelo campo,
mas o campo era tão triste...
Ai!
Cantar de beira de rio.


EPIGRAMA Nº 12
 
A engrenagem trincou pobre e pequeno inseto.
E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida.
 
Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?
 
Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada mas partida?


CANÇÃO EXCÊNTRICA
 
Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.
 
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
 
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida.



ENCOMENDA
 
Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.
 
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixa esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
 
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não...Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.



(Fonte: Antologia poética/Cecília Meireles. 3.ed.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Cecília Meireles

 




Cecília Meireles (1901-1964)

Formou-se professora primária, dedicou-se longos anos ao magistério e escreveu um livro para o curso primário Criança, Meu Amor. Ensinou Literatura Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936-1938) e do Texas (1940). Viajou longamente pelos países de sua predileção, México, Índia e, sobretudo, Portugal onde viu reconhecido o seu mérito antes mesmo de consagrar-se no Brasil, como uma das maiores vozes poéticas da língua portuguesa contemporânea.

Fonte: BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira.43 ed.São  Paulo:Cultrix, 2006. p.460.



EXERCÍCIO
 

Ciência, amor, sabedoria,
tudo jaz muito longe, sempre
– imensamente fora do nosso alcance.
 


Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
já se podem vencer abismos
– cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.

 

Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.


(Cecília Meireles)



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Depoimento de leitura e escrita

        "Desde muito cedo queria aprender a ler, lembro-me perfeitamente bem que aos quatro, cinco anos, perturbava um dos meus irmãos, que era leitor voraz de história em quadrinhos, para ensinar-me a ler o que estava escrito nos balões daqueles desenhos incríveis. Hoje, ao recordar, constato que, mais do que o desenho, a escrita me fascinava. Pois bem, ele foi meu primeiro professor, alfabetizou-me por meio das histórias em quadrinhos.
         Naquela época – fim dos anos 60 – nós tínhamos acesso aos gibis porque meu irmão trabalhava em uma banca. O gibi do “Tio Patinhas” era meu favorito, foi nele que descobri o universo da leitura e escrita, por causa de suas historinhas eu queria ficar rica e dona de poços de petróleo quando crescesse – que engraçado – fui alfabetizada pelo “capitalismo selvagem”.
         Eu e meus irmãos aprendemos a ler por pura curiosidade e, antes de frequentarmos a escola. Nossos pais e avós eram analfabetos. Digo eram, porque alguns já morreram. Minha mãe está viva, ela tem 87 anos. Continua analfabeta das letras, mas tem um conhecimento de mundo de dar inveja a muitos letrados.
         Lembro-me, também, de quando fui pela primeira vez à escola, no “pré-primário” como se falava na minha cidade. A professora ficou espantada em descobrir que eu já sabia ler. Como ia fazer 7 anos em maio daquele ano e estava alfabetizada, ela transferiu-me para o 1º ano do ensino primário. São lembranças incríveis, eu poderia escrever muito mais sobre elas. Aprender a ler e escrever desde muito cedo foi uma descoberta fantástica e arrebatadora: eu poderia saber tudo o que quisesse, sobre qualquer coisa.
         Infelizmente não tínhamos acesso aos livros. A escola não tinha biblioteca, nós não tínhamos dinheiro para comprar livros, nem gibis e nem revistas. A única biblioteca da cidade era pequena e quase todos os livros eram acadêmicos ou enciclopédias, sem contar a burocracia para pegar alguns livros. Eu nunca conseguia. Minha mãe achava uma bobagem, para ela, ler era coisa de vagabundo, de quem não tinha o que fazer e de quem não trabalhava. Coitada! As lembranças são inúmeras, poderia ficar horas escrevendo sobre elas.
         Aprender a ler é a experiência mais gratificante, rica e maravilhosa que pode acontecer na vida de uma pessoa."

(Depoimento da primeira experiência com leitura e escrita, relatado pela Professora Sônia Barbosa Juarez no curso MGME 2013 realizado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.)

Um pouco da biografia de Cora Coralina


 
 
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que adotou o pseudônimo de Cora Coralina, nasceu em 20 de agosto de 1889 em na cidade de Goiás, Goiânia. Fez apenas os estudos primários, mas em 1910 teve um conto publicado no Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás, já com o seu pseudônimo.

Em 1911, fugiu com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas para Penápolis, vinte e dois anos mais velho que ela, casado e separado da mulher. Casaram-se mais tarde, após a viuvez de Cantídio. Viveram em várias cidades do interior paulista até 1934, quando Cantídio faleceu.
Cora Coralina e seus seis filhos mudaram-se para São Paulo. Colaborou no Jornal O Estado de São Paulo e trabalhou como vendedora da Livraria José Olympio. Em 1938 voltou para Penápolis e abriu uma Casa de Retalhos.

Após quarenta e cinco anos voltou para sua cidade natal, para a velha casa da Ponte do Rio Vermelho, onde nasceu. Trabalhou como doceira por mais de vinte anos e assumiu seu outro ofício: o de poetisa. Cora Coralina vendia seus doces de casa em casa e recitava suas poesias.
Recebeu diversos prêmios como escritora. Em 1983 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás.

Faleceu em 10 de abril de 1985, em Goiânia, GO.
Algumas obras: Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (1965); Meu livro de cordel (1976); Vintém de cobre (1983).
 
Fonte:  www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura   Bibliografia da Patronesse Cora Coralina  - Nota: A Biblioteca Municipal leva o nome da poetisa: Biblioteca Cora Coralina.

Poemas de Cora Coralina


“Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”
 (Cora Coralina)
                                                     
“Se temos de esperar,
que seja para colher a semente boa
que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear,
então que seja para produzir
milhões de sorrisos,
de solidariedade e amizade.”
 
(Cora Coralina)





terça-feira, 4 de junho de 2013

Um pouco da biografia de Florbela Espanca

FLORBELA DE ALMA DA CONCEIÇÃO ESPANCA, nasceu em Vila Viçosa - Alentejo, em 1894. Em Évora fez seus estudos secundários e escreveu seus poemas reunidos postumamente no volume Juvenília (1931). Também teve publicadas postumamente as obras: Reliquiae (1931), Charneca em Flor (2ª ed.,1931), e dois livros de contos As Máscaras do Destino  e Dominó Negro ambos de 1931. Em 1919 foi para Lisboa onde publicou seu primeiro livro de poemas, o Livro de Mágoas, que não despertou interesse da crítica. Casou-se três vezes, mas não foi feliz em nenhum dos matrimônios. Viveu durante longo tempo deprimida, desiludida e doente, retirou-se do convívio social. Relacionava-se com poucos amigos. Faleceu em Matosinhos na noite de 7 para 8 de dezembro de 1930 enquanto dormia profundamente graças à ingestão excessiva de barbitúricos. Não se sabe ao certo se foi um acidente ou suicídio.

"É considerada a figura feminina mais importante da Literatura Portuguesa. Sua poesia, mais significativa que seus contos, e produto duma sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro diário íntimo onde a autora extravasa as lutas que travam dentro de si tendências e sentimentos opostos. Trata-se de uma poesia-confissão, através da qual ganha relevo eloquente, cálido e sincero, toda a angustiante experiência sentimental duma mulher superior por seus dotes naturais, fadada a uma espécie de donjuanismo feminino. A poetisa, como a desnudar-se por dentro (...) põe-se a confessar abertamente sua íntimas comoções de mulher apaixonada."

(MASSAUD. Moisés.A literatura Portuguesa. São Paulo: Cultrix. p. 312)

Um pouco da biografia de Fernando Pessoa

Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Órfão de pai aos cinco anos é levado pela mãe e pelo padrasto para a África do Sul. Era aluno excepcional. Em 1905 - em Lisboa - matricula-se na Faculdade de Letras e cursa Filosofia por algum tempo. Foi correspondente comercial em línguas estrangeiras até o fim da vida. Em 1915, lidera um grupo de moços que publica a revista Orpheu. Após o fim dessa revista dedica-se à criação duma extraordinária obra poética e crítica. Em 1934, candidata-se ao prêmio de poesia instituído pelo Secretariado Nacional de Informações de Lisboa, com a obra Mensagem, único livro em Português, que publica em vida, mas alcança apenas o segundo lugar. Já nessa altura começam a acentuar-se os sintomas provenientes de seus desregramentos alcoólicos. Corroído pela cirrose hepática, baixa ao hospital e dias depois falece, a 30 de novembro de 1935.



"Fernando Pessoa é dos casos mais complexos e estranhos, senão único dentro da Literatura Portuguesa, tão fortemente perturbador que só o futuro virá a compreendê-lo e julgá-lo como merece. (...) Ele integrou em sua personalidade tudo quanto constituía conquista válida do lirismo tradicional que tem seus pontos altos nas cantigas de amor, em Camões, Bocage, Antero, João de Deus, Cesário Verde, Camilo Pessanha, etc. Todavia, (...) com base em uma espécie de genialidade inata (...) conseguiu superar e enriquecer a velha herança recebida. (...) alcançou realizar um feito semelhante ao de Camões."



"(...) Tudo se passa como se Fernando Pessoa, fenomenologicamente colocado diante do mundo, tentasse reconstruí-lo ou ordená-lo partindo do nada, da estaca zero, recebendo como se fosse pela primeira vez os impactos mil vezes recebidos pelos homens no curso da História e, sentindo-os como descoberta 'pura', isenta de qualquer deformação intelectual anterior. Esse processo fenomenológico pressupõe, necessariamente, a multiplicação ilimitada do poeta em quantas criaturas compuseram e compõem a Humanidade."



"´(...) é desse múltiplo e desintegrante desdobramento de personalidade que nascem os 'heterônimos' de Fernando Pessoa. Nada tendo que ver com 'psedônimos', querem referir a existência de outros nomes, isto é, de outros poetas, com identidade, 'vida' e sentido autônomos, vivendo dentro do poeta, de forma que este se torna um e vários ao mesmo tempo."



"Multipliquei-me, para me sentir,/ Para me sentir, precisei sentir tudo,/ Transbordei-me, não fiz senão extravasar-me."  Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa.



FERNANDO PESSOA criou ou "descobriu" vários heterônimos, uns mais complexos que outros. Três são considerados os mais importantes:


ALBERTO CAEIRO - Nascido em 08 de maio de 1914 e mestre dos demais, é o poeta que foge para o campo, pois sendo poeta e nada mais, poeta por natureza, deve procurar viver simplesmente como as flores, os regatos, as fontes, os prados, etc., que são felizes apenas porque, faltando-lhes a capacidade de pensar, não sabem que o são: "O essencial é saber ver,/ Saber ver sem estar a pensar,/ Saber ver quando se vê,/ E nem pensar quando se vê,/ Nem ver quando se pensa".


RICARDO REIS - Simboliza uma forma humanística de ver o mundo, evidente na adesão ressuscitadora do espírito da Antiguidade clássica, de que o culto da ode e de um paganismo anterior à noção do pecado, constituem apenas duas particulares mas expressivas manifestações: "Assim façamos nossa vida um dia,/ Inscientes, Lídia, voluntariamente/ Que há noites antes e após/ O pouco que duramos".


ÁLVARO DE CAMPOS - É o poeta moderno, século XX, engenheiro da profissão, que do desespero extrai a própria razão de ser e não foge de sua condição de homem sujeito à máquina e à cegueira dos semelhantes, tudo transfundido numa revolta a um tempo atual e perene, própria dos espíritos inconformados: "Na véspera de não partir nunca/ Ao menos não há que arrumar malas/ Nem que fazer planos de papel".

(MASSAUD. Moisés. A Literatura Portuguesa. 12 ed. São Paulo: Cultrix. págs.295-300)













Sobre a literatura machadiana

"O ponto mais alto e mais equilibrado da prosa realista brasileira acha-se na ficção de Machado de Assis."

(Bosi, Alfredo.História Concisa da Literatura Brasileira.43 ed.São Paulo:Cultrix,2006.pg.174)


Machado de Assis

Um pouco da biografia de Machado de Assis

Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839 (Faleceu em 1908). Ainda menino ficou órfão de mãe. O pai casou-se novamente com Dona Maria Inês - lavadeira e doceira - que tratava o menino como sua própria mãe. O pai morreu logo depois. Machado de Assis tinha uma vida difícil, frequentava uma pequena escola onde aprendeu as primeiras letras. Mas, a formação
aconteceu mesmo fora do tempo e fora da escola, graças ao seu esforço e da ajuda do padre Silveira Sarmento.

Aos dezesseis anos publica seu primeiro trabalho: o poema (soneto) "Ela" na Marmota Fluminense. Dois anos depois Paula Brito - dono de uma tipografia e livraria - contrata Machado para trabalhar em sua loja: lá ele corrigia originais, fazia correção de textos e, nas horas vagas, trabalhava como caixeiro, vendendo livros. O contato com pessoas ligadas ao mundo dos livros deu aportunidade ao escritor de continuar publicando seus escritos em vários jornais e revistas.

Em 1867 ingressou no funcionalismo público, onde teve funções cada vez mais importantes como Diretor Geral da Viação, em 1892. Em 1869 casou-se com Dona Carolina Augusta Xavier de Novais, nesta época ele ainda não era o "Machado" escritor conhecido e festejado de alguns anos depois, mas também não era um joão-ninguém, pois trabalhava em jornais, frequentava rodas de intelectuais e tinha um emprego público. Entretanto, era mulato, coisa que a família de Carolina não aceitava. A despeito disso casaram-se e viveram felizes.

Em 1881 publica Memórias Póstumas de Brás Cubas, que juntamente com Papéis Avulsos (publicado um ano depois), marcou a segunda fase da obra machadiana. Entre 1881 e 1897 teve publicação assídua na Gazeta de Notícias. Em 1888, por decreto imperial, recebeu uma condecoração: foi nomeado oficial da Ordem da Rosa. Em 1897 é aclamado como presidente perpétuo da Academia Brasileira de Letras, fundada em ano antes. Em 1904 morreu sua esposa e em 1908 morreu Machado de Assis, rodeado de amigos e admirado nacionalmente.

"Decoro, compostura, respeito à autoridade, modéstia, timidez, espírito conservador, hábitos rotineiros - tudo isso foi Machado de Assis na vida particular e pública. (...) Gostava de frequentar ambientes intelectuais, de ser amigo de grandes homens, de pessoas famosas. Parece que lhe fazia bem à alma ser reconhecido e aceito pela roda mais intelectual e bem reputada do Rio de Janeiro. Machado morreu, numa situação bem diferente daquela em que nasceu. Se sua origem foi obscura, seu falecimento foi a notícia nacional. Longe dos escassos parentes, morreu cercado de amigos, entre os quais alguns de renome. Seu corpo, velado na Academia Brasileira de Letras, foi homenageado por Rui Barbosa."

Fonte: LAJOLO, Marisa. Machado de Assis/seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios. São Paulo: Abril Educação, 1980. Literatura Comentada.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

POEMAS DE FLORBELA ESPANCA

POETAS

Ai almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

(Florbela d'Alma da Conceição Lobo Espanca - 1894/1930 - poetisa portuguesa)


VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada!...

(Florbela d'Alma da Conceição Lobo Espanca - 1894/1930 - poetisa portuguesa)


EU...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

(Florbela d'Alma da Conceição Lobo Espanca - 1894/1930 - poetisa portuguesa)


O FADO

Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...

Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...

É o fado. A canção das violetas:
Almas de tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi agonia!

Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito sejas tu! Ave-Maria!...

(Florbela d'Alma da Conceição Lobo Espanca - 1894/1930 - poetisa portuguesa)