Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888. Órfão de pai aos cinco anos é levado pela mãe e pelo padrasto para a África do Sul. Era aluno excepcional. Em 1905 - em Lisboa - matricula-se na Faculdade de Letras e cursa Filosofia por algum tempo. Foi correspondente comercial em línguas estrangeiras até o fim da vida. Em 1915, lidera um grupo de moços que publica a revista Orpheu. Após o fim dessa revista dedica-se à criação duma extraordinária obra poética e crítica. Em 1934, candidata-se ao prêmio de poesia instituído pelo Secretariado Nacional de Informações de Lisboa, com a obra Mensagem, único livro em Português, que publica em vida, mas alcança apenas o segundo lugar. Já nessa altura começam a acentuar-se os sintomas provenientes de seus desregramentos alcoólicos. Corroído pela cirrose hepática, baixa ao hospital e dias depois falece, a 30 de novembro de 1935.
"Fernando Pessoa é dos casos mais complexos e estranhos, senão único dentro da Literatura Portuguesa, tão fortemente perturbador que só o futuro virá a compreendê-lo e julgá-lo como merece. (...) Ele integrou em sua personalidade tudo quanto constituía conquista válida do lirismo tradicional que tem seus pontos altos nas cantigas de amor, em Camões, Bocage, Antero, João de Deus, Cesário Verde, Camilo Pessanha, etc. Todavia, (...) com base em uma espécie de genialidade inata (...) conseguiu superar e enriquecer a velha herança recebida. (...) alcançou realizar um feito semelhante ao de Camões."
"(...) Tudo se passa como se Fernando Pessoa, fenomenologicamente colocado diante do mundo, tentasse reconstruí-lo ou ordená-lo partindo do nada, da estaca zero, recebendo como se fosse pela primeira vez os impactos mil vezes recebidos pelos homens no curso da História e, sentindo-os como descoberta 'pura', isenta de qualquer deformação intelectual anterior. Esse processo fenomenológico pressupõe, necessariamente, a multiplicação ilimitada do poeta em quantas criaturas compuseram e compõem a Humanidade."
"´(...) é desse múltiplo e desintegrante desdobramento de personalidade que nascem os 'heterônimos' de Fernando Pessoa. Nada tendo que ver com 'psedônimos', querem referir a existência de outros nomes, isto é, de outros poetas, com identidade, 'vida' e sentido autônomos, vivendo dentro do poeta, de forma que este se torna um e vários ao mesmo tempo."
"Multipliquei-me, para me sentir,/ Para me sentir, precisei sentir tudo,/ Transbordei-me, não fiz senão extravasar-me." Álvaro de Campos - Heterônimo de Fernando Pessoa.
FERNANDO PESSOA criou ou "descobriu" vários heterônimos, uns mais complexos que outros. Três são considerados os mais importantes:
ALBERTO CAEIRO - Nascido em 08 de maio de 1914 e mestre dos demais, é o poeta que foge para o campo, pois sendo poeta e nada mais, poeta por natureza, deve procurar viver simplesmente como as flores, os regatos, as fontes, os prados, etc., que são felizes apenas porque, faltando-lhes a capacidade de pensar, não sabem que o são: "O essencial é saber ver,/ Saber ver sem estar a pensar,/ Saber ver quando se vê,/ E nem pensar quando se vê,/ Nem ver quando se pensa".
RICARDO REIS - Simboliza uma forma humanística de ver o mundo, evidente na adesão ressuscitadora do espírito da Antiguidade clássica, de que o culto da ode e de um paganismo anterior à noção do pecado, constituem apenas duas particulares mas expressivas manifestações: "Assim façamos nossa vida um dia,/ Inscientes, Lídia, voluntariamente/ Que há noites antes e após/ O pouco que duramos".
ÁLVARO DE CAMPOS - É o poeta moderno, século XX, engenheiro da profissão, que do desespero extrai a própria razão de ser e não foge de sua condição de homem sujeito à máquina e à cegueira dos semelhantes, tudo transfundido numa revolta a um tempo atual e perene, própria dos espíritos inconformados: "Na véspera de não partir nunca/ Ao menos não há que arrumar malas/ Nem que fazer planos de papel".
(MASSAUD. Moisés. A Literatura Portuguesa. 12 ed. São Paulo: Cultrix. págs.295-300)
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