"Desde muito cedo queria aprender a ler, lembro-me perfeitamente bem que
aos quatro, cinco anos, perturbava um dos meus irmãos, que era leitor voraz de
história em quadrinhos, para ensinar-me a ler o que estava escrito nos balões
daqueles desenhos incríveis. Hoje, ao recordar, constato que, mais do que o
desenho, a escrita me fascinava. Pois bem, ele foi meu primeiro professor,
alfabetizou-me por meio das histórias em quadrinhos.
Naquela época – fim dos anos 60 – nós tínhamos acesso aos gibis porque
meu irmão trabalhava em uma banca. O gibi do “Tio Patinhas” era meu favorito,
foi nele que descobri o universo da leitura e escrita, por causa de suas
historinhas eu queria ficar rica e dona de poços de petróleo quando crescesse –
que engraçado – fui alfabetizada pelo “capitalismo selvagem”.
Eu e meus irmãos aprendemos a ler por pura curiosidade e, antes de
frequentarmos a escola. Nossos pais e avós eram analfabetos. Digo eram, porque
alguns já morreram. Minha mãe está viva, ela tem 87 anos. Continua analfabeta
das letras, mas tem um conhecimento de mundo de dar inveja a muitos letrados.
Lembro-me, também, de quando fui pela primeira vez à escola, no
“pré-primário” como se falava na minha cidade. A professora ficou espantada em
descobrir que eu já sabia ler. Como ia fazer 7 anos em maio daquele ano e
estava alfabetizada, ela transferiu-me para o 1º ano do ensino primário. São
lembranças incríveis, eu poderia escrever muito mais sobre elas. Aprender a ler
e escrever desde muito cedo foi uma descoberta fantástica e arrebatadora: eu
poderia saber tudo o que quisesse, sobre qualquer coisa.
Infelizmente não tínhamos acesso aos livros. A escola não tinha
biblioteca, nós não tínhamos dinheiro para comprar livros, nem gibis e nem
revistas. A única biblioteca da cidade era pequena e quase todos os livros eram
acadêmicos ou enciclopédias, sem contar a burocracia para pegar alguns livros.
Eu nunca conseguia. Minha mãe achava uma bobagem, para ela, ler era coisa de
vagabundo, de quem não tinha o que fazer e de quem não trabalhava. Coitada! As
lembranças são inúmeras, poderia ficar horas escrevendo sobre elas.
Aprender a ler é a experiência mais gratificante, rica e maravilhosa que
pode acontecer na vida de uma pessoa."
(Depoimento da
primeira experiência com leitura e escrita, relatado pela Professora Sônia
Barbosa Juarez no curso MGME 2013 realizado pela Secretaria de Educação do
Estado de São Paulo.)
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